Poema de Rita Prazeres
Costureira
Gostava de poder ir a uma costureira,
Daquelas lojas pequenas que cheiram a tecido antigo
E pedir-lhe, sem explicar muito, se podia coser o meu coração
Eu levava-o comigo, dobrado com cuidado
Dentro de uma saca pequena bem arranjada
Como quem leva algo frágil
Entregava-lhe o saco com um sorriso nervoso
Dizia a olhar para o chão
“É só para arranjar”
Ela abria o saco devagar,
Olhava os fios soltos, as falhas
Os pontos mal feitos por outras mãos
E eu ficava ali à espera
Com medo da resposta
Ela dizia-me então,
Com aquela calma de quem já viu de tudo:
“Vai dar trabalho,
Vai levar tempo,
E não vai ficar como antes.”
Ia para casa enquanto ela cosia
Voltava de vez em quando para ver como ia
Parecia sempre melhor mas nunca bom
Quando ela acabou
Fui ao provador
Experimentei o coração
E tinha voltado a servir
