jornal plural do agrupamento de escolas dr. manuel laranjeira

A propósito de Fernando Pessoa

A propósito do poema

 

 

Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

 

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

 

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

 

Fernando Pessoa

Mensagem e autor: reflexão

Penso a toda a hora e, naquilo que penso, penso apenas e só que estou a penar… Não é produto da razão: é clausura, é vida aprisionada. Quem me dera deixar de pensar…

Amo o pensamento. Quem era eu sem a razão? O mundo é lindo e complexo, uma sequência de causa e efeito, efeito e causa, à espera de ser decifrado. Posso perder tudo, mas enquanto tiver a mente sou rico.

Mas quem me dera poder pensar pouco, às vezes. Dava jeito, um jeitaço, diria eu… acordar e espreguiçar-me, banhar os meus lábios ao sol, esticar as minhas patinhas felpudas e lamber o meu pelo farfalhudo…, como um gato que brinca na rua. Ah, que inveja!…

Onde ficamos? Pensar ou não pensar?

Este era o dilema de Fernando Pessoa, e estas palavras poderiam ser suas. Um indivíduo racional por natureza, o poeta desejava dar algum repouso ao cérebro, tal como um gato. No entanto, queria também manter a sua personalidade forte e densa, cheia de filosofias e veias artísticas delicadas, apenas acessíveis através do pensamento.

Confusão e perplexidade: eis o que sinto. Como pode tal anseio existir? Mas, ao mesmo tempo…, todos temos coisas que desejamos, mas que, se formos a ver, não são algo essencial ou que realmente queremos. Logo, talvez perceba a necessidade de Pessoa. Invejar o gato não é apenas capricho literário. É, sim, um anseio por libertação, sossego e paz por parte do “eu”: é desejar viver melhor, pensando menos, tentando, simultaneamente, ignorar o facto de que não pode soltar-se da amarra do pensamento, mesmo querendo muito fazê-lo. Assim, talvez me reveja um pouco nesta inveja; e, consequentemente, me reconheça, também, no poema.

João Neves, aluno do 12ºB
JoãoNeves
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