jornal plural do agrupamento de escolas dr. manuel laranjeira

Um Encontro de Gentes

     Há na escola uma coreografia invisível, feita de passos que chegam e passos que partem. É um lugar de travessia, onde os ciclos se renovam como as estações. Pessoas saem, deixando nas paredes o eco da sua voz e nos corredores a sombra da sua entrega. Pessoas ficam, tornando-se guardiãs de memórias e alicerces de continuidade. E há as que chegam, com o olhar ainda por estrear, prontas para escreverem a sua própria história.

     Nesta dança de mudanças e transições, muitas vezes o ruído da burocracia e o peso da legislação tentam silenciar o essencial. Mas o essencial é teimoso e não se deixa verter em decretos. O essencial habita no afeto — essa única constante que sobrevive ao tempo e às ausências.

     Como nos ensinou Pestalozzi, “o amor é o sol da educação”. E tal como o sol, o afeto não precisa de permissão para aquecer. Ele acontece no intervalo de um suspiro, na delicadeza de um “bom dia” ou na coragem de quem decide olhar para o outro antes de olhar para o papel, porque, como bem diz António da Nóvoa, “o professor é a pessoa”, e é nessa humanidade despida de cargos que reside a nossa verdadeira autoridade.

 

 

     O essencial habita no afeto e, para mim, essa é uma constante que sobrevive ao tempo e às ausências.

     Cada rosto que cruza o nosso caminho é uma semente que fica. À sua maneira, cada um deixa um registo na pele da alma — um traço de gratidão, um pedaço de saber, uma partilha de vida. As estruturas podem transformar-se e os organogramas podem ser redesenhados, mas o património imaterial dos afetos é sagrado; ele não se apaga, transfigura-se naquilo que somos.

     Que saibamos, pois, celebrar quem passou, honrar quem fica e abraçar quem chega com a mesma ternura. No final de cada jornada, o que nos define não é o que fizemos, mas sim como cuidámos. As pessoas passam, as leis mudam, mas o afeto… esse é o fio de seda que nos une e nos torna, verdadeiramente, inesquecíveis.

Fátima Ferreira, educadora de infância
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