Interpelar ou endeusar a IA?
Atualmente, assistimos a uma narrativa que exacerba os méritos da tecnologia digital sublimada à categoria de prometeica. Há pessoas que idolatram as virtualidades da tecnologia, como se o mundo de amanhã pudesse ser desenhado apenas por artífices humanos com cérebros hiperconectados a tecnologias mais sofisticadas e complexas. O anseio pela desmaterialização da vida e pela correlativa (con)vivência num mundo virtual de cyborgs mega-inteligentes parece uma crença pós-moderna demasiado atraente para muitos que desdenham de tudo o que é especificamente humano, designadamente a elevação do humano, a partir de estímulos biológicos, à dimensão da consciência e da espiritualidade.
Ensaia-se a exaltação do ser humano robotizado e desgarrado do mundo envolvente que, com o auxílio de máquinas de armazenamento e combinação de dados, poderá engendrar uma miríade de criações exponencialmente incalculáveis, mas cujas consequências no biossistema se revelam imprevisíveis. Prepara-se um mundo em que o pensamento singular, formado por redes neurais únicas, originais e intransmissíveis, construídas ao longo de dezenas de anos, poderá ser substituído por um pensamento único e dominante modelado pelos arquitetos do ciberespaço em função de arquétipos que presidam aos interesses dos grandes magnatas das redes e plataformas digitais.
É provável que as crianças do futuro tenham os dedos mais esguios e afiados e os seus cérebros se revelem muito mais atrofiados e com menos circunvoluções e fissuras. Talvez uma noz tecnológica digital possa funcionar como substituto de um cérebro pesado e complexo que se tornará num mero apêndice funcional que ligará o sistema sensorial ao sistema nervoso central. Para quê o esforço de pensar, se a máquina pode pensar por mim? Para quê sofrer por amor, se a máquina me pode proporcionar virtualmente estados mentais de prazer intenso e amor genuíno, plausivelmente verdadeiros, sem o incómodo de ter que errar e voltar a tentar até encontrar o amor?
Ligo a máquina, coloco-a a trabalhar e fico livre, sem amarras à realidade factual, desligada do cansaço e da dor que a minha condição de ser corpóreo acarreta. Se quiser, posso simular de forma vívida, conquanto ligada à máquina, que sou benévola, imortal, invencível, toda poderosa, ainda que suspensa no mundo virtual. Uma espécie de quase Deus intrínseco e conexo à máquina. Realidade ou ficção? Ou realidade e ficção? Talvez o futuro venha a ser tecido com fios mistos da realidade e da ficção.
Viveremos num mundo híbrido onde não será possível descortinar, nos fios da meada, as redes neuronais e as redes inextricáveis da tecnologia fina capaz de fazer um robot passar-se por humano, olhar o mundo com olhos e sentidos de humano e convencer-se, bem como convencermo-nos, de que é humano. Afinal, para onde vamos e será que queremos realmente ir por aí?
