Um prémio (literário) com o nosso patrono
No Dia Mundial do Livro (23 de abril de 2016), foi apresentada ao público a 1ª edição do Prémio Literário Manuel Laranjeira.
No Dia Mundial do Livro (23 de abril de 2016), foi apresentada ao público a 1ª edição do Prémio Literário Manuel Laranjeira.
Depois de um interregno de cerca de cinco anos, regressou a Espinho um evento para marcar a atividade cultural da cidade, na projeção de uma das suas figuras maiores e na dinamização da arte de escrita literária.
Na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva e em parceria com o Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, publicitou-se aquele que vai ser um prémio com periodicidade bienal, visando o incentivo, a promoção e a divulgação da criação literária para autores com idade igual ou superior a 18 anos. São admitidos apenas textos inéditos, escritos em português e de autoria única, na modalidade dos géneros de diário, carta ou texto ensaístico, versando um tema da atualidade.
O prémio pecuniário de 5.000,00€ (cinco mil euros) é atribuído, no dia da cidade de Espinho (16 de junho), ao autor cujo texto e cuja qualidade de escrita sejam reconhecidos por um júri constituído para o efeito (a saber, um representante da edilidade; o Prof. Dr. Pedro Serra, da Universidade de Salamanca; a Prof. Drª. Maria João Reynaud, da Universidade do Porto; o escritor João Pedro Mésseder; o Prof. Anthero Monteiro).
Os géneros considerados (carta, diário, texto ensaístico) são, por certo, aqueles a que o homenageado mais recorreu e que mais o notabilizaram na sua produção escrita. São aqueles aos quais o produtor de um discurso se dedica e se propõe no que é, no que pensa e no que deseja ser ou ter; aqueles nos quais o escritor dá imagem(ns) intencionalmente criada(s), admitindo ao leitor a construção de representações na maior ou menor dependência do sabido sobre quem escreveu; aqueles em que o “eu” pode convocar uma multiplicidade de papéis, conforme a versatilidade da sua personalidade e das suas vivências (das mais consensuais às mais alternativas ou ousadas, das mais individualistas e confessionais às mais coletivamente configuradas num ‘nós’ que pode ter tanto de convergente como de crítico e dissonante); aqueles em que o ‘eu’ se pode dar a ler com matizes muito diferenciados, metamorfoseando-se e fazendo do registo tendencialmente autobiográfico uma condição que não contradiz o ficcional, o sentido “mascarado” das emoções, das vivências, dos retratos, das opiniões e das posturas onde o mito de Narciso se (re)cria em espelhos mais ou menos deformado(re)s.
A escrita e os textos são um exemplo desses espelhos, onde Manuel Laranjeira se olhou e se deu a ver e a ler. Bastaria lembrar o Pessimismo Nacional (1907-8), enquanto obra de fôlego na índole do ensaio reflexivo sobre a condição de um tempo; as Cartas de Manuel Laranjeira (1943), volume póstumo prefaciado por Miguel de Unamuno, no domínio epistolográfico; o Diário Íntimo (1957), na confessionalidade de um ‘ego’ inconformado, que anseia pelo que o mundo não lhe parece querer dar – todos a corroborarem a seleção dos géneros e a mostrarem-se como obras ou exemplos textuais inspiradores de um autor na vida de um ser, de um espaço e de um tempo. Desta feita, interessará que os temas a eleger sejam os contemporâneos. E dos mais consensuais aos mais fraturantes, eles estão aí aos nossos olhos, ouvidos e outros sentidos, para motivar reações, visões, escritos ajustados à mediação criativa de quem esteja / está também atento à vida e a faz representar(-se) em texto. Saibamos vivê-la para que a morte não responda por ela.
Para terminar, em beleza, não pode acabar este apontamento sem deixar de se referir que a sessão de apresentação pública contou com a leitura dramatizada de um excerto da obra do autor espinhense, além de um momento belo e sonoroso, conduzido por um par de alunos da Escola Dr. Manuel Laranjeira (Eunice Aguiar e Tiago Cunha, respetivamente do 12ºE e 12ºB), tendo dado a conhecer, tocando piano e cantando, uma ária de registo erudito composta por um contemporâneo de Manuel Laranjeira: Francisco Lacerda (“Tenho tantas saudades”).
Para os interessados na participação do Concurso, a consulta do regulamento do prémio pode ser feita na página da Câmara Municipal de Espinho, bem como na da Biblioteca Municipal.
No Dia Mundial do Livro (23 de abril de 2016), foi apresentada ao público a 1ª edição do Prémio Literário Manuel Laranjeira.